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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
30/01/2004 14/11/2003 4 / 5 5 / 5
Distribuidora
Duração do filme
138 minuto(s)

Direção

Peter Weir

Elenco

Russell Crowe , Paul Bettany , James D’Arcy , Edward Woodall , Max Pirkis , Jack Randall , Lee Ingleby , Billy Boyd

Roteiro

Peter Weir , John Collee

Produção

Peter Weir

Fotografia

Russell Boyd

Música

Iva Davies

Montagem

Lee Smith

Design de Produção

William Sandell

Figurino

Wendy Stites

Direção de Arte

Bruce Crone

Mestre dos Mares: O Lado Mais Distante do Mundo
Master and Commander: The Far Side of the World

Dirigido por Peter Weir. Com: Russell Crowe, Paul Bettany, James D’Arcy, Edward Woodall, Max Pirkis, Jack Randall, Lee Ingleby e Billy Boyd.

Quem for ao cinema assistir a Mestre dos Mares com a expectativa de ver um filme de ação, repleto de efeitos visuais e pirotecnias, certamente ficará desapontado. Apesar de se passar durante as guerras napoleônicas e enfocar o confronto entre um navio inglês e outro francês, o longa se mostra muito mais interessado em retratar a vida dos marinheiros a bordo do H.M.S. Surprise, comandado pelo veterano capitão Jack Aubrey, do que nas batalhas propriamente ditas. Assim, em vez de passarmos duas horas mergulhados em explosões, tiros de canhão e duelos de espadas, somos apresentados aos tripulantes da embarcação britânica e ao cotidiano destes, incluindo suas tarefas diárias, seus procedimentos de treinamento, suas dificuldades, sacrifícios e, é claro, a camaradagem inigualável entre homens que passam boa parte de suas existências em alto-mar.

Adaptada por John Collee e Peter Weir a partir da série de livros publicada ao longo de 30 anos pelo escritor Patrick O’Brian, a trama tem início em 1805, quando o capitão Aubrey recebe instruções do almirantado britânico para interceptar o navio francês Acheron, que se encontra próximo à costa brasileira. Apesar de sua larga experiência e de sua história de sucessos (que lhe renderam o apelido de `Jack Sortudo`), Aubrey é surpreendido pela superioridade da embarcação inimiga, que possui maior velocidade e resistência, além de mais tripulantes. Derrotado no primeiro confronto, o capitão Aubrey torna-se verdadeiramente obcecado em derrotar os franceses, passando a seguir o Acheron à procura da melhor oportunidade para tomá-lo – decisão que é encarada com reservas por seu melhor amigo e médico do navio, o racional Stephen Maturin.

Desde o princípio, o diretor Peter Weir se esforça ao máximo para conferir realismo ao filme, dedicando os primeiros minutos de projeção à tarefa de estabelecer a precariedade das condições de viagem a bordo de uma embarcação do início do século 19, quando vemos os tripulantes do Surprise dormindo amontoados em um espaço limitado e extremamente abafado. Decidido a levar o espectador para o interior do navio, o cineasta devota bastante atenção aos detalhes, como ao esclarecer a necessidade de se jogar areia no chão da sala em que os feridos são atendidos a fim de evitar a formação de poças de sangue. E, mais tarde, ilustra o desespero dos homens em um período de calmaria e de falta de chuva, que levam à escassez de água para consumo humano e à impossibilidade de dar prosseguimento à viagem.

E se as batalhas navais modernas, com embarcações motorizadas e cascos extremamente resistentes, já são assustadoras, o que dizer da insegurança de uma época em que a estrutura dos navios era de madeira e os combatentes dependiam da direção do vento para se posicionarem para o confronto? Para o capitão Aubrey, um rombo no casco não representa uma simples questão de `selar um compartimento` a fim de evitar o naufrágio, mas um problema desesperador que precisa ser solucionado de forma braçal: seus subalternos são obrigados a fechar a abertura com estopas e tábuas improvisadas. Aliás, a maior prova de que Weir foi bem-sucedido em seu propósito de transmitir a sensação de isolamento e desconforto da permanência prolongada em alto-mar reside na seqüência em que Aubrey faz uma parada nas ilhas Galápagos, levando o espectador a sentir um profundo alívio por poder se ver temporariamente livre de toda aquela água.

Outro detalhe curioso presente em Mestre dos Mares diz respeito à presença de crianças entre os tripulantes do Surprise – um fato relativamente comum na época, mas que raramente é retratado nas produções do gênero. Um dos oficiais aprendizes, em particular, merece destaque: vivido com talento por Max Pirkis, o jovem Lorde Blakeney, de apenas 13 anos de idade, está longe de se parecer com a típica criança dos filmes de Hollywood. Inseguro em certos momentos e decidido em outros, Blakeney é um pequeno herói em formação, e, para isso, assimila o que pode de seus dois tutores, Aubrey e Maturin – e, além de se tornar uma figura importante ao longo da projeção por seus próprios méritos, o garoto ainda funciona como uma maneira de permitir que o público perceba as diferenças entre os dois adultos que lhe servem de exemplo.

Orgulhoso de seu navio, o capitão Aubrey é um homem resoluto que não gosta de se ver em desvantagem – e, assim, sua derrota inicial para o Acheron é mais do que um contratempo estratégico; é um golpe em seu orgulho. Ainda assim, ele procura evitar ao máximo que sua obsessão pela vitória represente um risco desnecessário para seus homens e, por isso, Aubrey não vê problema algum em fugir do inimigo caso esta seja a solução mais viável. Interpretado por Russell Crowe com a energia habitual, o capitão revela-se um líder admirável, equilibrando a postura autoritária com uma extrema sensibilidade para os dilemas dos tripulantes: rápido em reconhecer problemas, ele não perde tempo para procurar resolvê-los, como ao perceber a postura nada firme de um de seus oficiais. Para Aubrey, o mar é sua verdadeira casa.

Maturin, por sua vez, jamais se mostra totalmente confortável a bordo do Surprise, já que, mesmo depois de anos na Marinha, não conhece o linguajar técnico nem as nuances da navegação (durante um jantar, por exemplo, ele fica confuso ao perceber que todos os demais oficiais acabam de comemorar um evento que ele sequer percebeu: a mudança da direção do vento). Por outro lado, o médico é extremamente competente em seu campo de atuação, chegando ao ponto de realizar, no convés do navio, uma cirurgia no cérebro de um marinheiro a fim de aproveitar a iluminação (e com instrumentos nada apropriados: uma colher e uma moeda). Entusiasta da zoologia, Maturin (cujo intérprete, Paul Bettany, é o grande destaque do longa) aproveita as viagens ao lado do amigo Aubrey para pesquisar novas espécies animais – e sua viagem aos Galápagos leva-o a formular questões que precedem a teoria de Darwin em mais de cinco décadas (e se há algo que os fãs de filmes como Bad Boys 2 e +Velozes +Furiosos jamais poderiam esperar de um longa de ação é uma discussão sobre a evolução das espécies...).

Não é à toa que o centro de Mestre dos Mares reside justamente na dinâmica relação entre Aubrey e Maturin: este último não consegue compreender como o amigo pode abrir mão de importantes descobertas científicas simplesmente por seu desejo de destruir o inimigo e pela excitação da batalha; enquanto o primeiro irrita-se com o pensamento puramente racional do médico, que, apesar de estar sujeito às decisões da Marinha, parece não perceber a importância estratégica de se tomar o navio francês.

Mestre dos Mares possui, sim, ótimas seqüências de ação: as batalhas que acontecem no primeiro e no último atos, em particular, são intensas e incrivelmente gráficas. Mas, ao tornar o espectador íntimo da tripulação do H.M.S. Surprise, Peter Weir confere uma dimensão adicional ao conflito, permitindo que compartilhemos da camaradagem típica dos marinheiros.

28 de Janeiro de 2004

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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