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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
09/01/2020 25/12/2019 4 / 5 4 / 5
Distribuidora
Sony

Adoráveis Mulheres
Little Women

Dirigido e roteirizado por Greta Gerwig. Com: Saoirse Ronan, Emma Watson, Florence Pugh, Eliza Scanlen, Timothée Chalamet, Louis Garrel, James Norton, Jayne Houdyshell, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Chris Cooper, Laura Dern e Meryl Streep.

As folhas de papel ocupam todo o chão do quarto de Jo March, que, depois de escrever de modo febril por várias horas, agora se dedica a rearranjar as páginas de seu livro de acordo com algum critério particular. Trata-se de uma imagem eficaz para ilustrar o processo criativo de uma artista, mas, claro, absurda: nenhum escritor edita ou reimagina seu trabalho mudando as páginas de lugar – ao contrário de um roteirista, que frequentemente estrutura o esqueleto de sua história ao anotar cenas individuais em fichas que, então, podem ser movidas para tornar a trama mais eficaz. Em outras palavras, a cena em questão é também, ao seu próprio modo, um comentário metalinguístico sobre o processo da diretora e roteirista Greta Gerwig, que usa a protagonista como seu próprio avatar e também de Louisa May Alcott, autora da obra original.

Já adaptado para o Cinema e para a TV algumas dezenas de vezes desde a primeira versão, de 1917, o livro de Alcott conta uma daquelas histórias que, por se concentrar mais em seus personagens do que em incidentes específicos, são perfeitas para releituras em diferentes épocas e países, já que, mesmo mantendo seus pontos principais, cada realizador(a) pode conferir sua própria sensibilidade à jornada das irmãs Meg (Watson), Jo (Ronan), Beth (Scanlen) e Amy (Pugh), que, morando com a mãe (Dern) e uma criada (Houdyshell) enquanto o pai se encontra na guerra, aprendem o valor da caridade, do amor e da amizade, experimentam perdas e decepções e caminham rumo à idade adulta e suas dificuldades.

Desta vez, porém, o roteiro de Gerwig toma uma decisão estrutural que traz vantagens e problemas próprios ao adotar uma cronologia não-linear, iniciando com Jo já adulta, morando em Nova York e tentando se estabelecer como escritora, e saltando ocasionalmente para alguns anos no passado, quando a garota ainda reside em Concord, Massachusetts, e passa os dias se divertindo com as irmãs e o vizinho rico Laurie (Chalamet) – quando não estão brigando entre si ou ajudando a mãe a manter a casa em meio a dificuldades financeiras. Este vai-e-vem temporal traz agilidade para a narrativa, permitindo que a diretora possa estabelecer contrastes impactantes entre passado e futuro, entre a formação das personagens e suas manifestações adultas e entre os sonhos da juventude e a inclemência da realidade. Aliás, é notável como Gerwig e o diretor de fotografia francês Yorick Le Saux jamais permitem que o espectador se confunda em relação às épocas, já que, de modo significativo, pintam a juventude das irmãs com cores quentes e saturadas que acabam por ceder lugar à frieza e à dessaturação de suas vidas adultas. Da mesma maneira, o montador Nick Houy joga com essas estratégias visuais em seus saltos cronológicos, que se apresentam fluidos e elegantes – como, por exemplo, quando vemos Jo através de uma janela enquanto escreve e, depois de um corte para outro personagem que a observa, voltamos à moça, mas agora já em outro período. Já em outro instante, Houy contrapõe uma personagem saindo da sala da tia March (Streep) em um ano à outra que entra para encontrá-la tempos depois – e as duas sequências quase idênticas que acompanham Jo despertando e descendo as escadas à procura da irmã são um lindo exercício de rima dramática.

Infelizmente, esta estrutura, como já dito, traz alguns percalços – entre estes, o fato de que o indivíduo interpretado por Bob Odenkirk é mantido de fora da maior parte das sequências no “presente” até surgir também no passado, o que é no mínimo implausível. Enquanto isso, o impacto que a morte de um personagem normalmente provocaria é suavizado ao voltarmos a encontrar a pessoa no flashback seguinte minutos depois. E se a decisão de usar as mesmas atrizes para as versões jovens e adultas das irmãs March já é arriscada, a coisa se torna ainda pior quando, em certo ponto, Amy lembra o espectador de que tem 20 anos de idade, o que nos obriga a aceitar Florence Pugh como uma adolescente de 13 anos logo a seguir (e por melhor que seja a atriz, seu comportamento saltitante nas sequências no passado não são o bastante para vender a ideia).

Pugh, por sinal, teve em 2019 um ano esplendoroso ao surgir também no excelente Midsommar: O Mal Não Espera a Noite, no qual sua composição sombria, emocionalmente devastada, é diametralmente oposta ao temperamento de Amy March, que, ao contrário da irmã protagonista, não hesita em abraçar o pragmatismo ao planejar o futuro, estabelecendo com esta uma dinâmica que com frequência se apresenta tensa em função desta diferença e dos ressentimentos que surgem como consequência. E se Eliza Scanlen é hábil ao evitar que Beth se torne apenas um recurso melodramático do roteiro, Emma Watson vive seu tipo habitual, que contrapõe juventude e seriedade, o que pode não representar versatilidade, mas funciona neste contexto (dito isso, sigo com a impressão que surgiu desde os primeiros Harry Potter: em maior ou menor grau, Watson quase sempre transparece o que deveria ser invisível, que é o fato de estar atuando).

O elenco secundário, por sua vez, mostra-se impecável ao trazer cor e multidimensionalidade aos indivíduos que preenchem o universo das irmãs March: Chris Cooper evoca a dor subjacente à generosidade enlutada do Sr. Laurence, Meryl Streep diverte com o rigor da tia March, Laura Dern traz calor humano a Marmee, Louis Garrel cria uma das versões menos esnobes (e, como resultado, mais simpáticas) de Friedrich Bhaer e Timothée Chalamet encarna Laurie como um riquinho cujo esnobismo intelectual o impede de perceber a própria ignorância, levando-o a manifestar uma rebeldia babaca e desinformada (exatamente a mesma descrição que usei ao discutir sua performance em Lady Bird, o que é um problema recorrente nas composições do ator).

O que nos traz à “musa” de Greta Gerwig: a atriz irlandesa (ok, nascida em Nova York, mas criada na Irlanda) Saoirse Ronan, que está destinada a superar Meryl Streep como a mais premiada da história do Oscar. Repleta de energia, espontaneidade e carisma, a Jo March de Ronan é uma garota cuja rebeldia se manifesta em seu jeito deselegante de sentar – inclinada para frente e com os cotovelos sobre os joelhos -, sua paixão ao falar da escrita e sua recusa de aceitar que qualquer homem defina seu papel ou os de suas irmãs na sociedade. Além disso, a atriz ressalta com talento as diferenças entre as versões adolescente e adulta da personagem, substituindo o vigor alegre da primeira pela melancolia crescente da segunda.

Mantendo sua câmera sempre em movimento para refletir o temperamento das irmãs March, mas inteligente ao reconhecer os momentos em que os tableaux vivants são praticamente uma exigência da história (como aqueles que trazem as garotas amontoadas ao redor e aos pés da mãe ou outro, lindíssimo, que revela Jo e Beth em uma praia), Greta Gerwig e o designer de produção Jess Gonchor criam paletas de cores específicas para cada irmã – num ótimo trabalho da figurinista Jacqueline Durran – e transformam o lar da família March em um ambiente que pode soar pontualmente atribulado sem que isto diminua sua atmosfera aconchegante. Em contrapartida, o recurso de trazer personagens falando diretamente para a câmera aqui e ali tem resultados díspares, bem como a utilização de uma câmera lenta que parece ser empregada de forma aparentemente aleatória. Já a trilha de Alexandre Desplat, ainda que onipresente (como tendem a ser seus trabalhos), não soa intrusiva ou exagerada, compondo a narrativa sem tentar dominá-la.

Mas talvez o maior feito de Gerwig em sua versão de Adoráveis Mulheres seja evitar o erro tão comum de, ao trazer uma sensibilidade moderna a uma história de época, acabar por criar um tom anacrônico e artificial. Assim, por mais contemporâneas que sejam as discussões sobre os abusos constantes de uma sociedade patriarcal que insiste em tratar as mulheres como subcidadãs – seja ao limitar suas oportunidades ou suas remunerações e reconhecimento -, o filme encaixa estes discursos de maneira orgânica na narrativa (e em alguns casos, são literalmente discursos, como aquele, brilhante, em que Amy explica a Laurie por que é obrigada a encarar o casamento como uma transação econômica).

Inteligente ao embaralhar a conclusão do livro com a necessidade comercial/sexista imposta à própria Louisa May Alcott de casar ou matar suas personagens femininas, este novo Adoráveis Mulheres adiciona uma ambiguidade maravilhosa ao destino da protagonista, sendo curioso observar como é a segunda vez na carreira de Saoirse Ronan em que, ao viver uma escritora, sua fabulação se torna, de modo metalinguístico, parte essencial do desfecho da história, permitindo que o espectador extraia satisfação de um final tradicional ao mesmo tempo em que reconhece sua artificialidade.

O que, por si só, já justificaria a existência desta nova versão.

21 de Janeiro de 2020

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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