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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
23/01/2020 25/12/2019 3 / 5 3 / 5
Distribuidora
Universal

1917
1917

Dirigido por Sam Mendes. Roteiro de Sam Mendes e Krysty Wilson-Cairns. Com: George MacKay, Dean-Charles Chapman, Daniel Mays, Pip Carter, Billy Postlethwaite, Claire Duburcq, Richard Madden, Andrew Scott, Colin Firth, Benedict Cumberbatch e Mark Strong.

“Todo filme sobre guerra acaba sendo pró-guerra”, afirmou François Truffaut em uma entrevista na década de 70. O que ele quis dizer, claro, é que ao funcionar como entretenimento – como quase toda produção tenta em maior ou menor grau -, os longas do gênero acabam por fazer os confrontos soarem emocionantes, ressaltando atos de heroísmo e a lealdade entre combatentes do mesmo lado.


Embora compreenda o argumento, não posso dizer que concordo inteiramente, já que obras como Nascido para Matar, Platoon, Pecados de Guerra e Cartas de Iwo Jima, mesmo eficazes em seu suspense e nas sequências de ação, lançam o espectador para fora do cinema com uma sensação de puro horror. Por outro lado, assim que 1917, novo trabalho de Sam Mendes, chegou ao fim, a frase de Truffaut me veio à mente de imediato: rodado com o objetivo de simular um plano-sequência (ou melhor: dois), o filme cria tensão e impressiona de um ponto de vista técnico, mas no fim das contas é vazio e trivial, soando como uma reciclagem de dúzias de clichês do gênero que são disfarçados pelas proezas realizadas pela câmera do diretor de fotografia Roger Deakins.

Escrito por Mendes e Krysty Wilson-Cairns a partir de relatos feitos pelo avô do cineasta, que combateu na Primeira Guerra Mundial, o roteiro acompanha dois soldados, Schofield (MacKay) e Blake (Chapman), que recebem a missão de levar uma mensagem importante a um certo coronel MacKenzie, que se prepara para enviar 1.600 homens a um confronto direto com os alemães por achar erroneamente que estes se encontram em retirada. Para evitar o massacre que aguarda os britânicos, Schofield e Blake devem chegar ao destino antes da manhã seguinte, sendo forçados a atravessar áreas possivelmente repletas de inimigos – uma jornada que se torna pessoal graças ao fato de o irmão de Blake ser integrante de um dos pelotões em risco.

Com um design de produção extraordinário de Dennis Gassner, que recria trincheiras, cidades em ruínas e terrenos enlameados e tomados por crateras que servem de valas abertas para cadáveres de animais e humanos (que, impossíveis de resgatar, se tornam meros pontos de referência na paisagem), 1917 conduz o público por estes espaços através de longos planos que, costurados com cortes ocultos por movimentos de câmera, objetos próximos da lente e efeitos digitais, nos convencem de estarmos testemunhando uma ação sem interrupções. Não que haja a intenção de sugerir uma narrativa em tempo real, uma vez que há a inclusão de uma elipse assumida e de outras não tão óbvias (como aquela que ocorre quando Schofield olha por uma janela no terceiro andar de uma casa e a câmera a atravessa, descendo ao chão e reencontrando o personagem já caminhando pela estrada diante desta), mas o efeito é eficaz ao ilustrar as dificuldades no percurso dos heróis. Há instantes, por exemplo, durante os quais os soldados caminham por territórios descobertos e que chegam a despertar um impulso de baixarmos a cabeça mesmo na segurança de nossas poltronas – e como a narrativa é rigorosamente restrita ao ponto de vista daqueles dois homens, o filme gera apreensão por jamais permitir que saibamos mais do que estes.

Infelizmente, é aqui que começam os problemas do projeto, sendo esta a primeira vez que me lembro de ver Deakins, um dos melhores de sua área (e meu favorito absoluto), valorizar a técnica e a estética da fotografia em detrimento da lógica interna da narrativa. Qual é, por exemplo, o fundamento central de sua câmera nesta produção? Em certos momentos, ela se comporta como os jovens que segue, arrastando-se no lamaçal quando estes o fazem, protegendo-se de disparos feitos em sua direção e, claro, deixando de enxergar quando um deles desmaia (na tal elipse escancarada que mencionei); já em outros, circula em volta dos personagens, flutua sobre a água e atravessa paredes, jamais se decidindo entre as posições de observadora ou participante da ação. Além disso, Deakins cria imagens de beleza ímpar, como aquelas que revelam uma cidade em chamas à noite – uma beleza problemática de um aspecto narrativo e, sim, ético, ao cosmetizar o horror e a destruição que retrata. Como se não bastasse, em pontos-chave da projeção os quadros e a mise-en-scène são concebidos para criar um suspense tolo antes de revelar os rostos de atores famosos em rápidas aparições, o que atira o espectador para fora da diegese ao ressaltar como estamos vendo não o coronel X ou o capitão Y, mas olha-só-é-aquele-Grande-Ator-Que-Eu-Adoro, quebrando nosso mergulho na história em prol de uma ponta bacana.

Aliás, a presença destas celebridades também acaba por assumir uma característica que remete mais a um game do que a um filme, como se apontassem autênticas passagens de fase – e o mesmo se aplica a incidentes forçadíssimos que expõem o interesse maior de Mendes pelo espetáculo do que por qualquer outra coisa, como, digamos, no episódio envolvendo um avião.

O que me traz, finalmente, ao maior problema de 1917: sua covardia e mesmo, se formos bem honestos, sua canalhice ao lidar com a violência praticada pelos heróis e por seus oponentes. Vejamos, por exemplo, a sequência do avião que acabei de mencionar (e aqui cabe um alerta de spoiler): além de aparentemente sugerir como posturas de humanidade e compaixão em um ambiente de conflito são recompensadas com traição e morte, Mendes retrata o piloto alemão como uma caricatura monstruosa, explorando o imaginário evocado pelos nazistas na Segunda Guerra e ignorando o contexto bem mais complexo da Primeira. E pior: ao mesmo tempo em que transforma os germânicos em adversários desleais e cruéis, o cineasta se esforça para suavizar todos os atos de violência cometidos por seus heróis, justificando-as como mera retribuição ou, no instante mais sórdido do longa, tornando-a menos chocante ao encená-la em contraluz para que não vejamos a vida de um jovem alemão se extinguindo enquanto é estrangulado pelo britânico (já a morte de um destes últimos é acompanhada em detalhes, incluindo a palidez crescente – adicionada por efeitos visuais – que toma conta de seu rosto à medida que o sangue deixa seu corpo).

Eficiente como entretenimento e problemático como Arte (algo que também ocorria – e por questões parecidas - com outro filme de Sam Mendes, Soldado Anônimo), 1917 me levou apenas a ter vontade de rever Glória Feita de Sangue, Sem Novidade no Front ou mesmo Feliz Natal, obras que não precisaram abrir mão de qualquer ética para manter o espectador hipnotizado pela tela.

24 de Janeiro de 2020

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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