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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
25/11/2021 24/11/2021 3 / 5 3 / 5
Distribuidora
Universal
Duração do filme
158 minuto(s)

Casa Gucci
House of Gucci

Dirigido por Ridley Scott. Roteiro de Becky Johnston e Roberto Bentivegna. Com: Lady Gaga, Adam Driver, Al Pacino, Jared Leto, Salma Hayek, Jack Huston, Alexia Murray, Vincent Riotta, Camille Cottin, Youssef Kerkour, Reeve Carney, Catherine Walker e Jeremy Irons.

Eu não sou um grande fã de Ridley Scott. Não me entendam mal: eu sou fã dos filmes que dirigiu nos primeiros anos de carreira, mas a partir de meados da década de 90 a produção do cineasta se tornou tão irregular que para cada Hannibal, O Gângster e Perdido em Marte há dois Falcão Negro em Perigo, Um Bom Ano, Robin Hood, Prometheus, O Conselheiro do Crime ou Alien: Covenant. (Isto para não mencionar Gladiador, um monumento de mediocridade que por algum motivo arrecadou vários prêmios.) E sejamos sinceros: por melhores que sejam os títulos que mencionei inicialmente, nenhum deles se aproxima do sucesso artístico de Os Duelistas, Alien e Blade Runner.


Dito isso, a competência técnica de Scott é inquestionável, bem como sua capacidade de adaptar seu estilo a cada projeto. Assim, é uma pena que seu trabalho em Casa Gucci seja tão… desprovido de personalidade, de uma voz que mantenha algum grau de consistência ao longo dos 158 minutos de projeção. Em vez disso, o que temos aqui é um filme que parece mudar de tom de cena para cena e, em alguns casos, durante a cena em si, como se o diretor jamais tivesse conseguido se decidir quanto à abordagem apropriada para o projeto. O curioso é que esta variação constante gera, aqui e ali, resultados interessantes graças a estes contrastes, o que ao menos mantém o tédio distante da experiência.

Escrito por Becky Johnston e Robert Bentivegna a partir do livro de Sara Gay Forden, o roteiro acompanha cerca de duas décadas da relação entre Patrizia Reggiani (Gaga) e o marido Maurizio Gucci (Driver), herdeiro da tradicional grife italiana. Nada sutil em relação ao interesse despertado pelo sobrenome do rapaz, Patrizia mostra-se determinada a conquistá-lo e a levá-lo a assumir um papel de destaque no negócio da família mesmo que o sujeito insista nunca ter sido tão feliz como ao ser deserdado pelo pai (Irons) e obrigado a trabalhar para se manter – uma postura típica de alguém que sabe que poderá parar de “brincar de pobre” assim que se cansar. Convencido a aceitar um cargo importante na empresa por seu tio Aldo (Pacino), responsável por expandir a marca globalmente, Maurizio aos poucos – e influenciado pela esposa – se torna mais ganancioso, o que provocará conflitos inclusive com seu fracassado primo Paolo (Leto).

Inteligente ao explorar o humor resultante do mundo absurdo dos multimilionários que retrata, Ridley Scott e sua equipe concebem ambientes cuja óbvia opulência é repleta de sombras que refletem a natureza traiçoeira de seus ocupantes. Além disso, por mais que “Gucci” seja, para muitos, sinônimo de bom gosto e sofisticação, o longa não deixa de apontar a cafonice tão frequente entre os representantes de uma elite econômica que insiste em confundir o valor pecuniário e o estético de suas posses (como o sofá que Maurizio descreve, orgulhoso, como "mais caro que muitos apartamentos"). E há também, claro, a ignorância daquelas pessoas que tiveram todas as oportunidades de se educar – como no instante em que uma personagem nascida em berço de ouro descreve seu desejo de voltar a visitar o Brasil enquanto faz uma contagem em espanhol e menciona a salsa.

Oferecendo farto material para a sátira (algo que Casa Gucci aproveita bem), a dinâmica da família-título baseia-se quase totalmente num sentimento ridículo de auto importância que leva aqueles homens (e são todos homens) a se julgarem especiais e árbitros do “refinamento”, ignorando convenientemente que, ao contrário do que gostariam de acreditar, não fazem parte de uma dinastia milenar, estando a uma geração de distância do proletariado (para eles, um palavrão) ao qual o fundador pertencia até fundar e transformar o sobrenome em marca. É irônico, portanto, o esnobismo com que tratam Patrizia, que nunca se sente totalmente aceita pelos novos parentes, que, de forma intencional ou não, insistem em tratá-la como inferior.

No entanto, ainda que a sátira domine boa parte da narrativa, seu lugar é tomado pela farsa sempre que Jared Leto entra em cena interpretando o caricatural Paolo debaixo de próteses que o deixam envelhecido, calvo e com uma barriga proeminente, quase roubando o filme no processo (acreditem, estou tão surpreso quanto vocês ao escrever isso). Se a princípio a escalação de Leto soa como mero golpe de marketing (algo que Scott havia feito também ao contratar Kevin Spacey em Todo o Dinheiro do Mundo), aos poucos a composição ganha força graças à vulnerabilidade que o ator traz ao personagem (seu olhar machucado ao ouvir a opinião do tio sobre sua coleção de moda é tocante) mesmo que o interprete como um estereótipo que deverá ofender qualquer italiano, com direito a um sotaque digno do “It´s-a me!” do Super Mario.

Mas Casa Gucci não fica apenas entre a sátira e a farsa, investindo também no melodrama e no operático – uma abordagem que pode ser sintetizada pela presença da versão de “Baby, Can I Hold You Tonight?” cantada em dueto por Tracy Chapman e Pavarotti e que, mesmo anacrônica (foi lançada anos depois dos eventos retratados na obra), é perfeita no contexto em que é empregada. Menos compreensível, por outro lado, é a sugestão feita em certo momento pelo roteiro de que talvez a vidente Pina (Hayek) tivesse poderes reais, o que indica uma indisposição por parte do filme de descartar qualquer ideia, por mais absurda que esta seja e por menos que se encaixe no material.

E esta é uma das razões que tornam a performance de Lady Gaga tão impressionante: sua capacidade de encontrar sempre um equilíbrio entre as diversas estratégias narrativas adotadas por Scott, reconhecendo a natureza ridícula de Patrizia sem permitir que isto a defina. Assim, ainda que a protagonista seja uma figura calculista e interesseira, há humanidade suficiente em sua construção para que suas dores soem autênticas, sendo notável como Gaga confere autenticidade à personagem em todas as suas versões, da jovem sedutora à mulher de meia-idade que regateia de forma patética com uma dupla de criminosos. De certo modo, é a atriz que serve como âncora enquanto o filme ao seu redor tenta navegar para todos os lados – o que não diminui os belos trabalhos de Adam Driver, que retrata a trajetória de Maurizio (de jovem de sorriso aberto a executivo arrogante e frio) com talento, e de Al Pacino, que comove com a decadência profissional de Aldo e seu amor contrariado pelo filho fracassado.

Contudo, eu estaria sendo injusto se não apontasse como os figurinos de Janty Yates complementam perfeitamente os esforços de Gaga enquanto esta percorre o arco vivido por Patrizia, dos vestidos simples e sensuais da juventude até os jeans surrados que veste no terceiro ato, passando por suas tentativas de emular o estilo dos ricaços que conhece até se fortalecer o bastante para adotar um estilo próprio que oscila entre o sofisticado e o brega. Além disso, a tática de Yates para ressaltar o afastamento do casal e a aproximação entre Maurizio e Paola (Cottin) é simples, mas eficaz, trazendo estes últimos vestidos num branco idêntico enquanto a esposa frustrada e de temperamento forte surge num vermelho intenso e contrastante. Para completar, basta um olhar rápido nas roupas do personagem de Jared Leto para constatar como sua sensibilidade estética (eufemismo para “mau gosto”) é um ponto fora da curva desenhada pelos Gucci.

Em última análise, porém, é decepcionante que um filme sobre pessoas tão obcecadas com estilo e que habitam um universo com tantas possibilidades estéticas seja tão insípido visualmente. E mesmo que eu aprecie o simbolismo presente no fato de que as preciosas vacas que estariam por trás da qualidade do couro da marca Gucci acabam sendo literalmente devoradas por capitalistas interessados apenas no lucro, não consigo deixar de pensar que as maquinações e tropeços daquela família mereciam um tratamento com mais energia e personalidade.

No fim das contas, faltou ao projeto uma grife como a de Scorsese.

18 de Dezembro de 2021

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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