27 ANOS

1917

★★★☆☆3/5 estrelas
12 min

Dirigido por Sam Mendes. Roteiro de Sam Mendes e Krysty Wilson-Cairns. Com: George MacKay, Dean-Charles Chapman, Daniel Mays, Pip Carter, Billy Postlethwaite, Claire Duburcq, Richard Madden, Andrew Scott, Colin Firth, Benedict Cumberbatch e Mark Strong.

“Todo filme sobre guerra acaba sendo pró-guerra”, afirmou François Truffaut em uma entrevista na década de 70. O que ele quis dizer, claro, é que ao funcionar como entretenimento – como quase toda produção tenta em maior ou menor grau -, os longas do gênero acabam por fazer os confrontos soarem emocionantes, ressaltando atos de heroísmo e a lealdade entre combatentes do mesmo lado.

Embora compreenda o argumento, não posso dizer que concordo inteiramente, já que obras como Nascido para Matar, Platoon, Pecados de Guerra e Cartas de Iwo Jima, mesmo eficazes em seu suspense e nas sequências de ação, lançam o espectador para fora do cinema com uma sensação de puro horror. Por outro lado, assim que 1917, novo trabalho de Sam Mendes, chegou ao fim, a frase de Truffaut me veio à mente de imediato: rodado com o objetivo de simular um plano-sequência (ou melhor: dois), o filme cria tensão e impressiona de um ponto de vista técnico, mas no fim das contas é vazio e trivial, soando como uma reciclagem de dúzias de clichês do gênero que são disfarçados pelas proezas realizadas pela câmera do diretor de fotografia Roger Deakins.

Escrito por Mendes e Krysty Wilson-Cairns a partir de relatos feitos pelo avô do cineasta, que combateu na Primeira Guerra Mundial, o roteiro acompanha dois soldados, Schofield (MacKay) e Blake (Chapman), que recebem a missão de levar uma mensagem importante a um certo coronel MacKenzie, que se prepara para enviar 1.600 homens a um confronto direto com os alemães por achar erroneamente que estes se encontram em retirada. Para evitar o massacre que aguarda os britânicos, Schofield e Blake devem chegar ao destino antes da manhã seguinte, sendo forçados a atravessar áreas possivelmente repletas de inimigos – uma jornada que se torna pessoal graças ao fato de o irmão de Blake ser integrante de um dos pelotões em risco.

Com um design de produção extraordinário de Dennis Gassner, que recria trincheiras, cidades em ruínas e terrenos enlameados e tomados por crateras que servem de valas abertas para cadáveres de animais e humanos (que, impossíveis de resgatar, se tornam meros pontos de referência na paisagem), 1917 conduz o público por estes espaços através de longos planos que, costurados com cortes ocultos por movimentos de câmera, objetos próximos da lente e efeitos digitais, nos convencem de estarmos testemunhando uma ação sem interrupções. Não que haja a intenção de sugerir uma narrativa em tempo real, uma vez que há a inclusão de uma elipse assumida e de outras não tão óbvias (como aquela que ocorre quando Schofield olha por uma janela no terceiro andar de uma casa e a câmera a atravessa, descendo ao chão e reencontrando o personagem já caminhando pela estrada diante desta), mas o efeito é eficaz ao ilustrar as dificuldades no percurso dos heróis. Há instantes, por exemplo, durante os quais os soldados caminham por territórios descobertos e que chegam a despertar um impulso de baixarmos a cabeça mesmo na segurança de nossas poltronas – e como a narrativa é rigorosamente restrita ao ponto de vista daqueles dois homens, o filme gera apreensão por jamais permitir que saibamos mais do que estes.

Infelizmente, é aqui que começam os problemas do projeto, sendo esta a primeira vez que me lembro de ver Deakins, um dos melhores de sua área (e meu favorito absoluto), valorizar a técnica e a estética da fotografia em detrimento da lógica interna da narrativa. Qual é, por exemplo, o fundamento central de sua câmera nesta produção? Em certos momentos, ela se comporta como os jovens que segue, arrastando-se no lamaçal quando estes o fazem, protegendo-se de disparos feitos em sua direção e, claro, deixando de enxergar quando um deles desmaia (na tal elipse escancarada que mencionei); já em outros, circula em volta dos personagens, flutua sobre a água e atravessa paredes, jamais se decidindo entre as posições de observadora ou participante da ação. Além disso, Deakins cria imagens de beleza ímpar, como aquelas que revelam uma cidade em chamas à noite – uma beleza problemática de um aspecto narrativo e, sim, ético, ao cosmetizar o horror e a destruição que retrata. Como se não bastasse, em pontos-chave da projeção os quadros e a mise-en-scène são concebidos para criar um suspense tolo antes de revelar os rostos de atores famosos em rápidas aparições, o que atira o espectador para fora da diegese ao ressaltar como estamos vendo não o coronel X ou o capitão Y, mas olha-só-é-aquele-Grande-Ator-Que-Eu-Adoro, quebrando nosso mergulho na história em prol de uma ponta bacana.

Aliás, a presença destas celebridades também acaba por assumir uma característica que remete mais a um game do que a um filme, como se apontassem autênticas passagens de fase – e o mesmo se aplica a incidentes forçadíssimos que expõem o interesse maior de Mendes pelo espetáculo do que por qualquer outra coisa, como, digamos, no episódio envolvendo um avião.

O que me traz, finalmente, ao maior problema de 1917: sua covardia e mesmo, se formos bem honestos, sua canalhice ao lidar com a violência praticada pelos heróis e por seus oponentes. Vejamos, por exemplo, a sequência do avião que acabei de mencionar (e aqui cabe um alerta de spoiler): além de aparentemente sugerir como posturas de humanidade e compaixão em um ambiente de conflito são recompensadas com traição e morte, Mendes retrata o piloto alemão como uma caricatura monstruosa, explorando o imaginário evocado pelos nazistas na Segunda Guerra e ignorando o contexto bem mais complexo da Primeira. E pior: ao mesmo tempo em que transforma os germânicos em adversários desleais e cruéis, o cineasta se esforça para suavizar todos os atos de violência cometidos por seus heróis, justificando-as como mera retribuição ou, no instante mais sórdido do longa, tornando-a menos chocante ao encená-la em contraluz para que não vejamos a vida de um jovem alemão se extinguindo enquanto é estrangulado pelo britânico (já a morte de um destes últimos é acompanhada em detalhes, incluindo a palidez crescente – adicionada por efeitos visuais – que toma conta de seu rosto à medida que o sangue deixa seu corpo).

Eficiente como entretenimento e problemático como Arte (algo que também ocorria – e por questões parecidas - com outro filme de Sam Mendes, Soldado Anônimo), 1917 me levou apenas a ter vontade de rever Glória Feita de Sangue, Sem Novidade no Front ou mesmo Feliz Natal, obras que não precisaram abrir mão de qualquer ética para manter o espectador hipnotizado pela tela.

24 de Janeiro de 2020

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
3.0
★★★☆☆

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Avaliações dos Usuários

User
Usuário2 de mar. de 2020

Voce diz tudo sobre esse filme aqui : " o filme cria tensão e impressiona de um ponto de vista técnico, mas no fim das contas é vazio e trivial, soando como uma reciclagem de dúzias de clichês do gênero que são disfarçados pelas proezas realizadas pela câmera do diretor de fotografia Roger Deakins." Filme bonito mas fraco!

User
Usuário7 de fev. de 2020

Isso me lembra que o próprio diretor do filme, Sam Mendes, disse o contrário em uma entrevista. Para ele "todo filme sobre guerra é anti-guerra" por retratar a destruição física e emocional causada. Vai de cada interpretação.

User
Usuário4 de fev. de 2020

Pablo, ótima crítica. Porém discordo com você em alguns pontos, eu pessoalmente gostei bastante do filme, e acredito que a beleza estética do filme seja algo semelhante ao que o diretor fez no filme Beleza Americana. Nesse Filme ele traz uma jovem aparentemente linda, bem resolvida e cheia de auto estima, porém nos momentos finais percebemos que era tudo uma ilusão, ele era apenas um rosto bonito, e não apresentava nada das coisas que nós, espectadores, acreditávamos que era. Dessa forma eu vejo a cena mencionada das chamas, é algo lindíssimo de se ver, porém assim que você vê tal cena, você instintivamente percebe o perigo à espreita, artifício também presente em uma cena de Apocalypse Now, onde vemos uma cena com de um helicóptero atirando em um vilarejo com a música Ride of the Valkyries tocando de fundo, essa cena possui alto valor de entretenimento, conquanto também percebemos mais tarde que estamos assistindo a um extermínio, e para mim pelo menos é nessa ambiguidade que mora o brilhantismo das cenas mencionadas, também vejo de maneira diferente a questão da jornada do herói desse filme, o fato de mostrar os personagens como heróis não é problema algum, já na questão de mostrar os alemães como estereótipos, eu discordo veemente, pois aquilo continua sendo uma guerra, e os atos de bondade empreendidos pelos personagens do filme , onde eles sempre são traídos logo depois é mais realista do que uma espécie de reacção amistosa por parte dos soldados inimigos, dessa forma não vejo demérito nenhum nisso, porém ainda respeito sua opinião Gosto bastante de seu trabalho Abraços