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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
30/03/2012 01/01/1970 4 / 5 / 5
Distribuidora
Downtown/Rio Filmes

Heleno
Heleno

Dirigido por José Henrique Fonseca. Com: Rodrigo Santoro, Alinne Moraes, Maurício Tizumba, Othon Bastos, Erom Cordeiro, Herson Capri.

É grande, a tentação de comparar Heleno a Touro Indomável: além de girarem em torno de ícones de seus respectivos esportes que brilharam ao executá-lo, mas levaram vidas conturbadas graças ao ímpeto de autodestruição que possuíam, ambos os filmes contam com belíssima fotografia em preto e branco e trazem protagonistas que vivem transformações físicas impressionantes enquanto compõem seus personagens. E, sim, isto significa que estou comparando a atuação de Rodrigo Santoro nesta produção à de Robert De Niro naquela.


Surgindo quase irreconhecível já na primeira cena do longa ao encarnar o jogador de futebol Heleno de Freitas em seus meses finais de vida, Santoro é o centro inquestionável de um filme que certamente fracassaria caso se ancorasse em um ator mais frágil. Vivendo o personagem-título como um homem arrogante, mulherengo e incrivelmente talentoso com a bola nos pés, o ator evoca com intensidade a paixão que Heleno nutria por seu Botafogo e o desejo com que encarava as belas mulheres que o assediavam, permitindo que conheçamos um homem cujas conquistas profissionais eram suplantadas apenas por seus fracassos como indivíduo.

Roteirizado pelo diretor José Henrique Fonseca ao lado do argentino Fernando Castets (Clube da Lua) e de Felipe Bragança (O Céu de Suely), o filme adota uma introdução não muito diferente daquela de Cidadão Kane ao nos apresentar a uma série de recortes de jornais que situarão o espectador com relação aos eventos que irá testemunhar ao longo da projeção – e, assim, mesmo que o roteiro soe episódico em alguns momentos, a passagem do tempo é ancorada pelo reconhecimento dos instantes anunciados pelos periódicos, sendo suavizada também por uma montagem que lida muito bem com as transições (como no instante em que o “velho” Heleno se inclina para lavar o rosto e tem o movimento completado por sua versão jovem).

Fotografado com o talento habitual pelo mestre Walter Carvalho (cujo documentário Raul estreou quase simultaneamente a esta cinebiografia), Heleno usa sua fotografia em preto e branco ao mesmo tempo para evocar um romantismo de época e a atmosfera triste e decadente de um homem sem rumo. Além disso, é interessante observar como Carvalho é capaz de, num momento, criar um plano esteticamente magnífico como o do carro sob a chuva, durante à noite, para no instante seguinte investir numa plástica bem mais estilizada ao enfocar Heleno sob uma densa neblina em seu período na Argentina, o que não só serve para levar o público a perceber o frio daquele ambiente como também para passar um universo de informações de maneira breve e econômica. E se o filme merece aplausos pela atenção investida em detalhes (como o pacote amarrado com um barbante barato), esta admiração também deve ser voltada ao excepcional trabalho de maquiagem, que impressiona ao envelhecer Santoro de maneira gradual e impactante.

Porém, este trabalho de maquiagem estaria perdido, claro, se o ator sob o látex não tivesse plena consciência de como encarnar um personagem tão complexo – e Santoro, mais uma vez auxiliado pelo soberbo Sérgio Penna, cria uma composição que jamais deixa de soar convincente, oferecendo o melhor desempenho de sua já rica carreira. Capaz de dizer até as falas mais duras com extrema naturalidade (“Sei do que gosto: gols, cinturinhas e cadilacs”), o ator cria um personagem raivoso que só se sente realmente completo em campo. Levando uma existência vazia em quartos de hotéis e camas divididas com estranhas, Heleno parece acreditar que seu talento como jogador lhe oferece carta branca para desrespeitar quem quer que seja, como podemos perceber no movimento casual de colocar os sapatos sujos sobre a mesa do dono do clube no qual trabalha. O curioso, porém, é perceber como esta arrogância constante se mostra parte fundamental de seu sucesso profissional, parecendo conferir-lhe força e determinação irrefreáveis, como se buscasse sempre provar-se digno do sentimento de superioridade – e, assim, é revelador o instante em que, frustrado, ele diz: “Eu era mais feliz com raiva”, num dos vários diálogos memoráveis presentes no roteiro.

No entanto, talvez as melhores cenas de Heleno sejam mesmo aquelas que se concentram na fase final da vida do sujeito, quando, internado em um sanatório de Barbacena e neurologicamente comprometido pela sífilis, ele passa os dias sob os cuidados carinhosos do enfermeiro vivido de forma magnífica por Maurício Tizumba. Nestes momentos, Santoro, com as mãos trêmulas e discurso incerto, executa a dificílima tarefa de retratar a insanidade do personagem através não só da expressão corporal derrotada, mas de um olhar que denuncia um vazio absoluto por trás das órbitas, sendo inesquecível o plano no qual o ator encara a câmera por vários segundos, sustentando o escrutínio de um espectador que nada encontra naqueles olhos nublados pela demência.

Demonstrando inteligência ao manter as cenas de futebol na periferia da narrativa, já que o esporte funciona, no filme, apenas como algo que viabiliza o comportamento abusivo e o egocentrismo do protagonista, o diretor José Henrique Fonseca (O Homem do Ano) ainda acerta ao frequentemente enfocar Heleno partido ao meio por cortinas, portas ou sombras, ilustrando com delicadeza a própria natureza do sujeito. Além disso, é rico de simbolismos o hábito do “velho” Heleno de comer os recortes de jornais, já que, assim, parece tentar engolir o passado enquanto por este é devorado.

E se muitos roteiristas cederiam à tentação de transformar a passagem final de Heleno pelo sanatório em um breve epílogo, é admirável e corajoso que, aqui, este período relativamente curto de sua vida corresponda a praticamente metade da projeção, já que, mostrando-se arrastado e sofrido, ilustra uma triste e trágica realidade: a de que, à sua própria maneira, o epílogo da existência de Heleno de Freitas parece ter durado mais do que os poucos momentos felizes que o jogador se encarregou de destruir.

04 de Abril de 2012

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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