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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
04/02/2005 29/10/2004 3 / 5 5 / 5
Distribuidora

Ray
Ray

Dirigido por Taylor Hackford. Com: Jamie Foxx, Kerry Washington, Regina King, Clifton Powell, Harry Lennix, Bokeem Woodbine, Sharon Warren, C.J. Sanders, Curtis Armstrong, Richard Schiff, Larenz Tate, Terrence Dashon Howard, David Krumholtz, Warwick Davis, Kurt Fuller.

Ao discutir as melhores performances já oferecidas em cinebiografias de ídolos da música, é impossível deixar de citar o trabalho fenomenal de Val Kilmer como Jim Morrison em The Doors, que se tornou o ideal a ser alcançado por qualquer outro ator que se aventure no gênero. Pois em 2004, dois outros intérpretes juntaram-se a Kilmer no alto do patamar – e o curioso é que ambos por desempenhos em longas apenas medianos: Daniel de Oliveira, em Cazuza – O Tempo Não Pára, e Jamie Foxx, neste Ray. Aliás, os esforços de Oliveira e Foxx resultaram em atuações tão fascinantes que muitos espectadores podem até ignorar as falhas graves de seus respectivos filmes – e somente isto poderia explicar o absurdo da indicação de Ray na categoria principal do Oscar 2005 em detrimento de produções infinitamente superiores, como Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, Closer, Diários de Motocicleta, Antes do Pôr-do-Sol e Os Incríveis.

Escrito pelo estreante James L. White, Ray é uma cinebiografia preguiçosa que, esforçando-se ao máximo para transformar a longa vida de uma pessoa real em um filme com arco dramático e três atos reconhecíveis, opta por saídas fáceis e decepcionantes ao lidar com várias das passagens mais importantes da trajetória pessoal e profissional do genial Ray Charles. Para início de conversa, a própria estrutura narrativa do longa é equivocada, atirando flashbacks a torto e a direito durante os 152 minutos de projeção. Porém, qual é a função real destes flashbacks? Esclarecer acontecimentos do `presente`? Pois isto só ocorre uma vez, quando descobrimos por que Ray só aceita ser pago com notas de um dólar; no restante do tempo, o recurso falha em se encaixar de forma orgânica ao desenvolvimento da história, por mais fascinantes que sejam as cenas envolvendo o jovem músico e sua mãe (algo que discutirei adiante).

Da mesma forma, a busca por maior concisão prejudica a apresentação e o desenvolvimento de vários personagens secundários. Observe, por exemplo, a trajetória de Margie Hendricks, uma das várias amantes de Ray: a partir de determinado instante da trama, ela simplesmente se torna alcoólatra e, a partir dali, é vista com uma garrafa de bebida nas mãos em praticamente todas as suas cenas restantes, como se para lembrar o público do vício da garota – ou seja, em vez de servir como um elemento adicional na composição da personagem, a garrafa passa a representá-la, o que é absurdo. O que o roteirista parece não perceber é que a busca por concisão é importante (principalmente em uma cinebiografia), mas não pode ser alcançada sacrificando-se a complexidade da história e tornando-a artificial – que é o que ocorre aqui, já que vários personagens simplesmente entram, cumprem determinada função e saem do filme sem maiores repercussões.

Esta artificialidade, diga-se de passagem, também afeta um dos pontos mais importantes da biografia de Ray Charles: sua dependência química. Na realidade, o vício do músico só é abordado pelo filme quando isto atende aos interesses imediatos do diretor Taylor Hackford – principalmente quando um conflito entre Ray e sua esposa se faz necessário. No restante do tempo, porém, o assunto é praticamente ignorado pelo longa. Ora, será que devemos acreditar que quase ninguém do círculo mais próximo a Ray Charles conhecia o problema? E que isso durou mais de duas décadas sem que ninguém (além de sua esposa) o interpelasse sobre a questão? A impressão que o filme tenta passar é a de que o vício jamais interferiu na relação entre o protagonista e seus companheiros de trabalho, o que acaba revelando mais sobre a participação do verdadeiro Ray Charles na realização do projeto do que sobre sua luta contra as drogas, o que é lamentável.

Por outro lado, Ray funciona muito bem quando se dedica a retratar a ascensão do personagem-título ao posto de nome fundamental na música do século 20: é fascinante perceber, por exemplo, como seu talento para a imitação dificultou seu crescimento artístico, já que, por algum tempo, ele não conseguiu encontrar a própria `voz`; e ainda mais fabuloso é `testemunhar` o momento em que Charles conhece outra lenda do cenário musical norte-americano, Quincy Jones. Além disso, o filme faz um excelente trabalho em estabelecer a importância do biografado para o movimento contra o racismo nos Estados Unidos e também seu lendário perfeccionismo, já que, sempre em busca do novo, ele abraçava todos os avanços tecnológicos que pudessem melhorar ainda mais a qualidade de seus discos – e é revelador compreender como Ray comandava seu estúdio com segurança absoluta, sendo capaz de perceber o menor dos problemas durante as gravações. Neste sentido, a seleção das canções que pontuam a narrativa foi impecável, já que marca bem cada época da vida do protagonista ao mesmo tempo em que nos leva a compreender um pouco melhor seu processo criativo.

Pena que o crescimento emocional do personagem não recebeu um tratamento igualmente cuidadoso: para justificar o sofrimento de Ray e sua busca pelas drogas, o filme concentra-se em um único episódio de sua infância, a morte de seu irmão caçula. Embora realmente trágico, o incidente é utilizado para explicar tudo o que ocorre dali em diante, ignorando uma série de outros elementos que certamente desempenharam papel importante na formação da personalidade de Charles. É claro que a infância do protagonista teria que ser recriada em sua cinebiografia, mas isto não justifica que tais cenas tenham sido transformadas em flashbacks, em vez de surgirem em ordem cronológica – muitas vezes, as soluções tradicionais ainda são as mais eficazes.

Seja como for, o fato é que as cenas funcionam quando analisadas individualmente, já que trazem duas atuações estupendas: a do garotinho C.J. Sanders, que interpreta Ray quando criança, e de Sharon Warren, como sua mãe. Warren, em particular, comove ao retratar uma mulher que, vítima de todo tipo de adversidades, encontra forças para ajudar o filho cego a se tornar auto-suficiente. Sim, seus métodos parecem cruéis (os momentos mais fortes da projeção são aqueles em que vemos Charles tentando caminhar em seu barracão), mas o que Aretha Robinson compreende é que, naquelas circunstâncias, proteger o filho seria um desfavor a este.

E chegamos, finalmente, à performance mediúnica de Jamie Foxx. Capturando com perfeição absoluta a linguagem corporal de Ray Charles (e sua voz, claro), o ator leva o público a esquecer de que está assistindo a uma performance; é como se o verdadeiro Charles vivesse o próprio papel. É um trabalho impecável e de extrema concentração – e a ilusão do espectador é quebrada uma única vez, graças a uma opção de extrema ignorância do diretor Taylor Hackford, que inclui uma seqüência na qual testemunhamos uma (acreditem ou não) alucinação do protagonista, durante a qual este imagina uma conversa com a mãe. Além de ser absolutamente ridícula, já que tenta obrigar o público a acreditar que um delírio seria capaz de solucionar todos os traumas emocionais do personagem, a seqüência parece ter sido adicionada como uma decisão de última hora, para amarrar a narrativa – e o fato de vermos Foxx sem sua maquiagem de cego, com os olhos abertos, nos acorda para a realidade de que, afinal de contas, estávamos apenas testemunhando o trabalho de um ótimo ator.

Como se não bastasse, Ray deixa uma série de perguntas importantes sem resposta: considerando-se que o verdadeiro Ray Charles participou do desenvolvimento do projeto, parece inevitável constatar, por exemplo, que ele reconsiderou sua atitude com relação ao amigo Jeff Brown, figura fundamental em seu sucesso financeiro. Porém, o que aconteceu com o sujeito? Eles voltaram a se relacionar? E o manipulador Joe Adams? E, afinal de contas, o que aconteceu com o filho de Charles e Margie? E por que o filme ignora o primeiro casamento do biografado? (Aliás, o roteiro chega a mentir, retratando Ray e sua segunda esposa, Della Bea, juntos em 1979, quando já haviam se divorciado há dois anos.)

Mas talvez a maior injustiça cometida por White (sobrenome irônico) seja a forma com que leva o personagem-título a se referir à própria cegueira, em vários momentos da narrativa: em discursos criados obviamente para levar o espectador às lágrimas, o roteirista praticamente retrata Charles usando sua deficiência como uma espécie de chantagem emocional barata, como se tivesse que ser perdoado por todos os seus erros em função de sua incapacidade de enxergar.

E esta é uma ofensa imperdoável a um homem que tanto lutou para superar suas adversidades físicas, emocionais e sociais.
``

26 de Janeiro de 2005

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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