Dirigido por Dominik Moll. Roteiro de Dominik Moll e Gilles Marchand. Com: Léa Drucker, Jonathan Turnbull, Mathilde Roehrich, Pascal Sangla, Guslagie Malanda, Stanislas Merhar, Antonia Buresi, Geneviève Mnich.
A violência policial constitui um fenômeno universal na experiência humana, com forças de segurança sistematicamente condicionadas à repressão operando como braço armado do sistema vigente, independentemente de sua configuração ideológica ou política (embora, como vimos nos ataques golpistas de 6 de Janeiro de 2023 e em vários outros momentos, elas tenham a tendência de encarar ações da extrema-direita com mais benevolência). O aspecto mais paradoxal desta dinâmica manifesta-se na aparente incapacidade dos integrantes dessas forças repressoras em reconhecer que, sob uma perspectiva socioeconômica, sua proximidade com aqueles que reprimem supera consideravelmente a que mantêm com aqueles a quem defendem; assim, manifestações populares, protestos organizados e posicionamentos coletivos contra o status quo enfrentam invariavelmente a repressão violenta por parte das autoridades constituídas, fenômeno que, embora agravado no contexto brasileiro em função da militarização das polícias, revela-se global em sua manifestação e consequências.
Na França de 2018, por exemplo, as manifestações organizadas pelo movimento dos chamados “coletes amarelos” culminaram em confrontos e episódios de brutalidade policial que serviram de inspiração para que o diretor alemão Dominik Moll, trabalhando a partir de roteiro coescrito por Gilles Marchand, realizasse Dossiê 137, exibido na mostra competitiva de Cannes deste ano. Moll, cujo filme anterior A Noite do Dia 12 também integrou a seleção do festival em 2022 (mas fora de competição), estabelece pontos de contato significativos entre aquela obra e este novo longa, particularmente ao retratar uma investigação policial a partir de uma abordagem focada em seus mínimos detalhes processuais.
Ancorado em um caso real, o filme gira em torno de um departamento da polícia francesa especializado em investigar atos de violência praticados por agentes de segurança no exercício de sua função – e que, liderado por Stéphanie Bertrand (Drucker), recebe uma denúncia relativa a um incidente ocorrido durante uma manifestação: um jovem que, mesmo sem exibir qualquer postura de confronto, foi atingido na cabeça por uma bala de borracha, resultando em sequelas neurológicas graves e permanentes.
Acompanhando meticulosamente o inquérito conduzido por Stéphanie em seus esforços para comprovar a ocorrência do crime, identificar seus responsáveis diretos e responsabilizá-los diante da lei, Dossiê 137 se configura como um procedural – formato narrativo que investe na exploração dos procedimentos investigativos e que se tornou popular especialmente em série de tevê como CSI e House (com os aspectos policiais sendo substituídos pelos médicos no caso deste último). Aliás, o filme insiste em retratar inclusive o processo burocrático inerente à investigação, trazendo sequências que enfocam a equipe da protagonista executando tarefas administrativas e legais como redigir petições e requerimentos, solicitar formalmente o acesso a imagens de câmeras de segurança, transcrever depoimentos e trocar e-mails com informações processuais, criando assim um retrato da rotina daqueles profissionais que é incomum em obras do gênero. Dito isso, é claro que mesmo ilustrando a frustração provocada por esta burocracia, que frequentemente implica em atrasos e obstáculos que dificultam o avanço das investigações, o longa não negligencia o trabalho de campo que, afinal, costuma mover estas narrativas.
Uma faceta deste trabalho reside nos depoimentos colhidos pela equipe – sejam de testemunhas, suspeitos ou outros envolvidos – e que são apresentados por Moll com uma estética que remete ao documental, posicionando os entrevistados no centro do enquadramento e com o olhar direcionado ligeiramente para fora do campo, sugerindo a presença de um interlocutor posicionado atrás da câmera. Esta abordagem estilística busca reforçar os aspectos factuais da narrativa, complementando esta estratégia ao incorporar imagens de arquivo das manifestações reais e da repressão policial (e os instantes que trazem recriações destes eventos se tornam indistinguíveis do material documental graças ao competente trabalho de fotografia de Patrick Ghiringhelli).
Mas o roteiro busca oferecer também vislumbres da vida pessoal da protagonista a fim de aproximá-la do espectador, retratando momentos de lazer, interações com colegas fora do espaço de trabalho (jogando boliche, por exemplo), sua presença em competições esportivas do filho e seu relacionamento com o ex-marido. Além disso, há um claro esforço para evitar caracterizá-la como uma “justiceira” obstinada em punir policiais, o que inclui nosso primeiro contato com a personagem, quando, depois de interrogar um policial que arremessou uma pedra contra manifestantes, ela liga para o chefe e oferece uma defesa do sujeito, argumentando que sua ação resultou de provocações e não de um simples impulso de violência. Neste sentido, Dossiê 137 merece créditos por abordar o corporativismo institucional nas forças policiais, salientando seus mecanismos de proteção interna, a cultura de falsos testemunhos para preservação mútua e a resistência sistemática a qualquer forma de responsabilização por atos de violência ou abuso de autoridade.
E mais: ao enfocar um policial que descreve seu treinamento como preparação para "salvar a república e contribuir para o esforço de guerra", o filme sugere como estes indivíduos equiparam o controle de manifestações civis a operações de defesa nacional contra ameaças externas. Para piorar, a utilização de unidades antiterrorismo para confrontar manifestantes evidencia como as corporações policiais são sistematicamente condicionadas a perceber a população como uma força hostil, mantendo sempre sua lealdade à preservação do status quo. Todos estes fatores, claro, levam a protagonista a enfrentar a hostilidade de seus pares, que a consideram uma traidora da categoria.
No entanto, apesar de tudo isso o filme evita a caracterização das forças policiais como uma entidade violenta por natureza – uma decisão questionável considerando as estatísticas e a história destes grupos. Sim, é possível concluir que esta é uma estratégia do diretor para conferir maior credibilidade às denúncias apresentadas, evitando a impressão de uma obra concebida a partir de pressupostos ideológicos, mas há momentos em que retratar a realidade é mais importante do que fortalecer dramaticamente uma narrativa.
Para piorar, o longa jamais se preocupa com as motivações por trás dos protestos, tratando-as de forma tangencial; as breves referências à crescente desigualdade econômica no contexto pós-neoliberal, com o empobrecimento progressivo de segmentos inteiros da população enquanto o percentil superior acumula riquezas em escala sem precedentes, pecam pela superficialidade, mostrando-se insuficientes para a compreensão de um fenômeno mundial que tem tudo para se tornar cada vez mais intenso. Em vez disso, Dossiê 137 prefere investir tempo na criação de tensões artificiais através de clichês: em determinado momento, por exemplo, a protagonista segue uma testemunha em uma longa sequência cuja tentativa de suspense não traz qualquer justificativa convincente, já que a policial conhece o endereço residencial da pessoa e seu local de trabalho, podendo abordá-la a qualquer momento.
Raramente alcançando uma contundência que faça jus à importância da história que conta, o filme acaba se apresentando como um retrato que, mesmo tecnicamente competente, empalidece diante da realidade que discute.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025
16 de Maio de 2025
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