Eleanor the Great
Dirigido por Scarlett Johansson. Roteiro de Tory Kamen. Com: June Squibb, Erin Kellyman, Chiwetel Ejiofor, Jessica Hecht, Rita Zohar, Will Price, Stephen Singer.
Comparar as estreias na direção de Scarlett Johansson e Kristen Stewart revela muito sobre as escolhas artísticas que ambas as atrizes têm feito nos últimos anos — duas intérpretes talentosas que, cada uma a seu modo, procuraram escapar do rótulo de símbolo sexual quando poderiam ter facilmente construído carreiras protagonizando exclusivamente superproduções baseadas em sua beleza física. Em vez disso, optaram por caminhos que desafiaram as expectativas do público e revelaram ambições artísticas admiráveis, embora a segunda tenha mantido maior consistência em suas buscas.
Pois se é inegável que Stewart tentou fugir de franquias depois de Crepúsculo, esforçando-se para trabalhar com diretores com autoralidade marcante (Olivier Assayas, David Cronenberg, Pablo Larraín, Kelly Reichardt) em projetos arriscados (como Love Lies Bleeding), Johansson jamais se afastou totalmente do comercial, investindo tempo considerável no Universo Cinematográfico Marvel e participando de produções feitas sob medida para o Oscar – às vezes com belos resultados (História de um Casamento), às vezes não (Jojo Rabbit). Aliás, já há um bom tempo que ela não assume riscos como em Match Point, Sob a Pele e Vicky Cristina Barcelona – e Eleanor the Great, ao contrário do corajoso A Cronologia da Água, só comprova como seus instintos recentes têm se mantido em territórios seguros e desinteressantes, recorrendo aqui a clichês como atalhos para provocar emoções pré-fabricadas, revelando falta de confiança tanto no material quanto na capacidade do espectador de compreendê-lo.
Estrelado pela excelente June Squibb, atriz que iniciou sua carreira nas telas aos 56 anos de idade e que viu sua trajetória ser impulsionada por seu belo trabalho em Nebraska quando já havia passado dos 80, o filme gira em torno da personagem-título, que, morando há mais de dez anos com a melhor amiga Bessie (Zohar) depois que ambas se tornaram viúvas, mantém um cotidiano confortável em sua previsibilidade e rotina bem estabelecida. Dona de um humor aguçado, Eleanor se contrapõe ao espírito mais melancólico da companheira, que, sobrevivente do Holocausto, exibe os danos psicológicos daquela experiência em seu olhar sempre triste. Porém, quando Bessie morre (não se trata de spoilers; faz parte da premissa do longa), a protagonista é forçada a voltar a morar com a filha e o neto em Nova York, inscrevendo-se em programas comunitários para passar o tempo – e é assim que vai parar acidentalmente em um grupo de apoio formado por indivíduos que conheceram os horrores dos campos de concentração e acaba por narrar a história da amiga como se fosse a sua própria, atraindo o interesse de uma jovem estudante de jornalismo, Nina (Kellyman).
De um ponto de vista temático, o roteiro de Tory Kamen flerta com questões dramáticas potencialmente instigantes, como a culpa experimentada pelos sobreviventes, que não conseguem abandonar um sentimento de remorso diante daqueles que não tiveram a mesma sorte enquanto se questionam se fizeram jus à vida que tiveram a oportunidade de aproveitar. De forma similar, o longa aborda tangencialmente a natureza da memória e sua relação com a mortalidade: em um momento tocante, por exemplo, Bessie comenta que é a única pessoa viva que ainda se lembra do irmão, morto ainda criança pelos nazistas - uma constatação devastadora que implica em como sua própria partida representará também uma segunda morte para o irmão, que deixará de existir mesmo em memória e terá qualquer traço de sua passagem pelo mundo apagado de vez, como se nunca houvesse existido. Infelizmente, estes temas jamais são explorados pelo filme, que parece mais interessado em utilizá-los como ferramentas instantâneas para provocar lágrimas apenas para abandoná-los a seguir. Além disso, em vez de demonstrar como estas questões afetam os personagens emocional e psicologicamente, o roteiro simplesmente os leva a verbalizar seus sentimentos em monólogos, o que, além de preguiçoso, parece sugerir que o espectador só será capaz de compreender nuances emocionais se articuladas explicitamente por aquelas pessoas.
Esta desconfiança sobre a capacidade cognitiva do público se manifesta também na obviedade com que a obra constrói suas situações dramáticas, sempre telegrafando seus desenvolvimentos futuros: depois que Nina começa a entrevistar Eleanor, por exemplo, vemos uma cena na qual seu professor discute o problema representado pelas fake news e a importância da apuração no jornalismo - uma manobra do roteiro para sinalizar que problemas éticos inevitavelmente surgirão, como se fosse necessário ouvirmos explicações sobre princípios básicos da profissão para compreendermos os riscos envolvidos na situação.
A mesma falta de ambição narrativa é ilustrada pelas conversas que se apresentam como clímax dramático, sejam estas entre Eleanor e a filha (Hecht), explorando décadas de ressentimentos e incompreensões mútuas, ou entre Nina e o pai (Ejiofor), um jornalista bem-sucedido que se isolou emocionalmente depois da morte da esposa. Além disso, em nenhum momento há qualquer dúvida de que a relação com Eleanor servirá como catalisadora para que pai e filha finalmente consigam se comunicar sobre a dor que dividem – e ainda assim a situação se desenvolve com uma artificialidade maior do que poderíamos esperar.
Mesmo os elementos cômicos do filme, que deveriam proporcionar leveza à narrativa, se mostram óbvios e unidimensionais, baseando-se em uma compreensão superficial do humor na terceira idade. Neste sentido, o roteiro parece operar sob a premissa de que qualquer coisa dita ou feita por uma pessoa de 94 anos será engraçada apenas por contradizer estereótipos sociais; assim, Eleanor deve constantemente recitar comentários irreverentes, fazer gestos obscenos e usar linguagem vulgar, já que aparentemente é hilário quando idosos agem como adultos normais. Em certo instante, ao tentar abordar a sexualidade na terceira idade, o longa beira o ofensivo com sua maneira superficial e apressada, que se reduz a um comentário em off feito por Eleanor e que se resume a um “Você acha que nós, velhos, não pensamos mais em sexo? É claro que pensamos”. E assim o assunto se encerra, como se o roteiro estivesse apenas marcando itens em uma lista de tópicos obrigatórios, sem qualquer interesse genuíno em explorá-los. Esta abordagem, claro, converte a protagonista em uma caricatura em vez de desenvolvê-la como uma figura com desejos, medos e contradições autênticas.
Igualmente convencional e desprovido de personalidade em suas estratégias visuais, Eleanor the Great faz o mínimo ao estabelecer o azul como cor associada à protagonista e que eventualmente será adotada também pela jovem jornalista para simbolizar a crescente conexão emocional entre as duas, mas este é seu limite criativo. Já a trilha sonora de Dustin O´Halloran, como é fácil imaginar, sinaliza constantemente como o espectador deve se sentir em cada cena: quando alguém diz algo supostamente engraçado, notas alegres sublinham a piada; quando uma revelação dramática ocorre, cordas melancólicas gritam a deixa para as lágrimas.
Mas se Eleanor the Great já se mostrava frágil em seus 70 minutos iniciais, o nível despenca de vez no ato final da narrativa, culminando (sem spoilers) em uma situação na qual o personagem de Ejiofor, apresentado ao longo de toda a projeção como um profissional sério e brilhante, faz algo que jamais poderia ser considerado como jornalismo – mas que o filme inexplicavelmente trata como um ato de imensa legitimidade jornalística.
Caso houvesse sido dirigido por qualquer outra pessoa além de Scarlett Johansson, Eleanor the Great jamais teria sido selecionado para a mostra Un Certain Regard no festival de Cannes.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025
20 de Maio de 2025
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