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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
06/03/2009 01/01/1970 3 / 5 / 5
Distribuidora

Quem Quer Ser um Milionário?
Slumdog Millionaire

Dirigido por Danny Boyle, Loveleen Tandan. Com: Dev Patel, Freida Pinto, Anil Kapoor, Irrfan Khan, Azharuddin Mohammed Ismail, Ayush Mahesh Khedekar, Madhur Mittal, Rubiana Ali, Ankur Vikal, Tanay Chheda, Ashutosh Lobo Gajiwala, Tanvi Ganesh Lonkar.

 

Em 2002, uma forte discussão em torno de Cidade de Deus tomou conta do meio acadêmico e da crítica: capitaneado pelo conceito da “cosmética da fome” definido pela pesquisadora Ivana Bentes, o debate girava em torno da argumentação de que o filme embalara a violência e a miséria de forma a torná-las apenas uma fonte de entretenimento, numa triste deturpação da ideologia admirável por trás da “estética da fome” concebida por Glauber Rocha na década de 60. Embora este tenha sido um insight bastante inteligente e pertinente de Bentes, sempre acreditei que ele se enfraqueceu por acabar centrando-se no filme errado, já que, por implicação, Cidade de Deus deveria ter nos apresentado a um universo que, trágico ou não, acabaria nos atraindo de alguma forma ao suavizar sua terrível realidade – justamente o oposto do que o filme faz, já que nenhum espectador são poderia sair do cinema desejando conhecer aquele mundo. Ironicamente, a idéia por trás da “cosmética da fome” se aplicava de maneira muito mais apropriada a outra produção nacional lançada poucos meses depois, Deus é Brasileiro, que magicamente convertia toda a pobreza do país em uma série de cartões postais que levavam o público a adotar uma linha de pensamento típica do burguês que, para aplacar a própria consciência, diz que o favelado é miserável, mas, em contrapartida, tem a melhor vista da cidade a partir da janela de seu barraco de madeira no alto do morro.

 

O que nos traz a este Quem Quer Ser um Milionário?: resumindo o brutal abismo entre ricos e pobres na Índia a uma série de imagens festivas que trazem centenas de mulheres lavando suas roupas coloridas à margem do rio ou garotos esfomeados correndo alegremente pelas ruelas sujas de uma favela em Mumbai, o filme de Danny Boyle (Extermínio, Caiu do Céu) pinta a existência daquela população miserável com cores vibrantes, como se tentasse nos convencer de que, apesar de famintos, fracos e analfabetos, os jovens protagonistas conduzem suas vidas com a alegria de uma aventura – e que, no final das contas, suas atribulações serão fartamente recompensadas pelo destino. Ora, se o que o demente Eli Roth costuma fazer em suas porcarias misóginas pode ser facilmente classificado como pornografia da tortura, não é necessário um grande salto para enxergar este Quem Quer Ser um Milionário? como uma variação sobre o tema, surgindo, portanto, como uma espécie de triste e reprovável pornografia da miséria. Ou, aqui, sim, se aplicando perfeitamente, como um projeto que abraça sem reservas a cosmética da fome definida por Bentes.

 

Escrito por Simon Beaufoy a partir de um livro de Vikas Swarup, o roteiro tem início com a bárbara tortura à qual é submetido o jovem protagonista Jamal (Patel). Participante da versão indiana do Show do Milhão, Jamal está a uma pergunta de ganhar o prêmio máximo e, desconfiados de que o jovem favelado trapaceou ao acertar todas as respostas até então, os policiais indianos tentam extrair uma confissão do rapaz – numa premissa absolutamente ridícula que nos obriga a aceitar que um respeitado apresentador iria promover a tortura de um popular participante de seu programa com a cumplicidade da polícia, que, por sua vez, não teria motivo algum para justificar a prisão e muito menos a selvageria promovida. E tudo isso para que Jamal possa narrar, através de uma série de flashbacks, como sua dura vida o trouxe de encontro às respostas que precisaria fornecer durante o programa que o transformará num milionário. E que vida: depois de testemunhar o assassinato de sua mãe em um massacre promovido contra os muçulmanos, Jamal e seu irmão Salim caem nas garras de um crápula que usa crianças como pedintes profissionais, vê sua jovem amiga (e sua grande paixão) Latika ser treinada para trabalhar como prostituta, choca-se com o envolvimento de Salim com o crime e por aí afora.

 

O problema é que Boyle retrata todas estas desgraças de maneira relativamente leve, impedindo que o espectador realmente se comova com o sofrimento do jovem protagonista, que, retratado em três fases diferentes, é visto sempre como um indivíduo perseverante e até mesmo bem humorado. Ao mesmo tempo, todas estas tragédias são suavizadas pelo fato de que proporcionam ao herói o contato fundamental com as respostas que precisará fornecer no programa que serve de centro narrativo da história – o que ainda acaba estabelecendo o protagonista não como um sujeito que sobreviveu graças à inteligência ou à sua presença de espírito, mas sim em função de sua sorte e do acaso, como uma espécie de Forrest Gump que deu a sorte de ouvir a explicação de que Benjamin Franklin ilustra as notas de 100 dólares e de que o revólver foi inventado por Samuel Colt (embora, a rigor, ele apenas tenha ouvido o irmão dizer que sua arma era uma Colt 45. Mas divago.). Como se não bastasse, a frágil atuação de Dev Patel torna Jamal ainda menos interessante, já que o rapaz não consegue nem mesmo demonstrar espanto ao constatar que, por uma espécie de milagre, é capaz de responder todas as perguntas feitas pelo cínico apresentador do programa.

 

Mas Quem Quer Ser um Milionário? não mereceria um desconto por ser uma fábula? Até certo ponto, sim – e, de fato, é impossível não sorrir ao ver o pequeno Jamal (Khedekar, adorável) exibindo uma imensa alegria por ter conseguido o autógrafo de seu ídolo mesmo que, para isso, tenha sido obrigado a mergulhar numa fossa abarrotada de fezes humanas (uma auto-referência de Boyle a Trainspotting, talvez?). Por outro lado, as inúmeras tragédias sociais e econômicas retratadas pelo filme acabam ancorando-o numa realidade da qual é impossível fugirmos, impedindo que ele possa ser encarado com a leveza exigida pelos contos de fadas. Uma coisa é vermos Jamal se passando por guia no Taj Mahal e inventando histórias para os turistas; outra é testemunharmos uma criança sendo cegada por adultos ou uma garota sendo estuprada por um jovem marginal (mesmo que isto ocorra fora de campo). Além disso, a fotografia quente e dessaturada de Anthony Dod Mantle, apesar de ótima, está longe de remeter a um universo fantasioso, cimentando ainda mais a história no mundo real.

 

Enquanto isso, o roteiro de Beaufoy jamais consegue escapar da natureza esquemática de sua estrutura artificial, não se preocupando nem mesmo em criar uma cronologia mais fluida, já que as perguntas feitas a Patel surgem na ordem exata em que as respostas cruzaram sua vida. Além disso, os personagens são pintados como extremos de bondade ou maldade, sem espaço para um meio-termo: não basta, por exemplo, que Maman (Vikal) aprisione crianças para que estas mendiguem em seu nome; é preciso, também, que ele cegue alguns meninos para que estes ganhem mais dinheiro. Da mesma forma, na seqüência do massacre dos muçulmanos, Jamal e Salim são ignorados em seus pedidos de auxílio feitos a policiais locais – e não basta que estes neguem ajuda; a frieza daqueles homens é tamanha que eles continuam a jogar cartas enquanto um muçulmano cruza a tela em chamas (ora, a simples curiosidade humana levaria, no mínimo, ao impulso de olhar na direção da tocha ambulante, não?). E mais: por que o apresentador Prem Kumar (Kapoor, excelente em seu cinismo) demonstra tanta aversão por Jamal, chegando a ridicularizá-lo constantemente diante da platéia? A resposta a todas estas questões é uma só: Beaufoy quer apenas estabelecer o protagonista como uma vítima que deve enfrentar, sozinha, um mundo de poderosos sem escrúpulos. Como se não bastasse, depois de retratar o inspetor vivido pelo sempre carismático Irrfan Khan como um torturador desprezível, o roteiro tenta torná-lo mais simpático ao longo da narrativa, como se o fato de acreditar na dura narrativa de Jamal fosse o bastante para compensar sua falta de escrúpulos ao massacrar o rapaz. Para finalizar, é impossível ignorar diálogos pavorosos como:

 

            - Venha comigo.

- Mas nós vamos viver de quê?

            - De amor.

 

            Ou:

 

            - Achei que fôssemos nos encontrar apenas na morte.

            - Este é o nosso destino.

            - Beije-me.

 

Ainda assim, o mais incrível é que, apesar de todos estes problemas graves, Quem Quer Ser um Milionário? não é um filme ruim. Esquemático? Sim. Maniqueísta? Sem sombra de dúvida. Vergonhoso por usar uma colossal tragédia social como desculpa para divertir? E como. Porém, a narrativa é também envolvente graças à montagem ágil de Chris Dickens e às transições elegantes concebidas por Boyle (como o tapa no rosto de Jamal que liga o programa de tevê à cena na delegacia; a elipse que ocorre durante a queda das crianças do trem em movimento; e, claro, os planos gêmeos que mostram Jamal diante de uma porta e de costas para a câmera no início da adolescência e já quase adulto, diante do apresentador e novamente de costas para o espectador). Além disso, a dinâmica entre o protagonista e seu irmão funciona muito bem na maior parte do tempo – especialmente quando estes são vividos pelos atores mais jovens -, estabelecendo uma proximidade que se contrapõe bem, do ponto de vista dramático, ao rompimento que ocorre posteriormente. Já o número musical que encerra a narrativa surge como uma mera curiosidade, um aceno de cabeça às tradições de Bollywood (sim, com “B”), servindo apenas para enviar o público para fora do cinema com uma sensação de energia que talvez tenha sido o principal fator a transformar o longa num sucesso inexplicável nesta temporada de premiações.

 

Porque, de outra maneira, torna-se difícil compreender como o roteiro pedestre de Beaufoy, a direção comprometida de Boyle e o próprio filme arrebanharam tantos troféus e placas nos últimos meses, ao passo que obras infinitamente superiores como Milk, Dúvida, Sinédoque, NY, Wall-E, O Cavaleiro das Trevas, Na Mira do Chefe e O Lutador, para citar apenas alguns exemplos, se viram relegadas ao papel de coadjuvante que, num mundo mais justo, deveria ter sido desempenhado por este divertido mas vergonhoso exemplar indiano da "nossa" cosmética da fome.

 

05 de Março de 2009

 

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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