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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
05/08/2021 06/08/2021 4 / 5 4 / 5
Distribuidora
Warner/HBO Max
Duração do filme
132 minuto(s)

O Esquadrão Suicida (2021)
The Suicide Squad

Dirigido e roteirizado por James Gunn. Com: Idris Elba, Margot Robbie, Daniela Melchior, John Cena, David Dastmalchian, Joel Kinnaman, Alice Braga, Viola Davis, Michael Rooker, Pete Davidson, Jai Courtney, Nathan Fillion, Mayling Ng, Flula Borg, Sean Gunn, Steve Agee, Tinashe Kajese, Jennifer Holland, Juan Diego Botto, Joaquín Cosio, Lynne Ashe, Storm Reid, Taika Waititi, Peter Capaldi e Sylvester Stallone.

Há uma uniformidade no Universo Estendido Marvel que, snyderismos à parte, falta aos seus primos da DC, que vão de Constantine a Shazam!, de Lanterna Verde a Mulher-Maravilha 1984: de modo geral, não importa quem seja o diretor (Jon Favreau, Kenneth Branagh, os irmãos Russo), os filmes estrelados pelos Vingadores – em conjunto ou solo – tendem a se parecer uns com os outros tanto em estética quanto em tom. Esta abordagem tem vantagens, claro: cria uma coesão (mesmo que superficial) entre as obras e evita surpresas desagradáveis, obrigando os cineastas a pintarem dentro dos limites desenhados pelos executivos do estúdio. Por outro lado, depois de um tempo todos começam a se confundir na memória dos espectadores por sua falta de personalidade e individualidade (algo que, por exemplo, a Warner evitou ao dar mais liberdade aos artistas que contratou para comandar a série Harry Potter). Não à toa, quando vi Guardiões da Galáxia, comentei em meu texto como o diretor James Gunn havia conseguido imprimir visão e atmosfera particulares ao projeto, mesmo que de modo mais contido – um feito que ele repete nesta sua nova versão de O Esquadrão Suicida.


Livre das amarras impostas brevemente pelas decisões estilísticas de Zack Snyder – que, por sua vez, parecia querer resgatar o tom sombrio da trilogia Batman comandada por Christopher Nolan -, Gunn cria aqui um trabalho que se recusa a se levar a sério mesmo que, à sua própria maneira, consiga evitar a higienização da violência tão comum no gênero, que, para garantir classificações indicativas mais leves, tende a esconder as consequências da destruição que invariavelmente ocorre em suas tramas. Assim, este Esquadrão Suicida justapõe leveza e violência gráfica, humor e pathos, de forma eficaz, brincando com uma paleta bem mais viva que a dessaturação de Homem de Aço, Batman vs. Superman e Liga da Justiça (incluindo sua versão posterior) enquanto simultaneamente investe em uma quantidade de sangue que nenhum de seus antecessores (da Marvel ou da DC) se atreveu a incluir.

Funcionando como uma espécie de reboot do trabalho pavoroso lançado por David Ayer em 2016, este novo filme mantém alguns dos personagens do anterior, elimina outros (em todos os sentidos) e nos apresenta a uma equipe majoritariamente nova composta por Sanguinário (Elba), Pacificador (Cena), Caça-Ratos 2 (Melchior), Tubarão-Rei (voz de Sylvester Stallone, fabuloso) e Bolinha (Dastmalchian), que exibe o superpoder mais absurdo que já vi em uma produção do gênero e que seu intérprete, auxiliado pelo diretor, faz funcionar de modo surpreendente. Há também uma outra formação que ganha apresentação com direito ao grupo caminhando em câmera lenta diante da bandeira dos Estados Unidos e cujo destino é uma das boas surpresas que o longa introduz já no primeiro ato de projeção. Auxiliados pelo mesmo coronel Flag (Kinnaman) do original e novamente agindo sob as ordens da implacável Amanda Waller (Davis), o Esquadrão é enviado a um país fictício na América do Sul que acabou de sofrer um golpe militar (bate-na-madeira-três-vezes) a fim de destruir o misterioso Projeto Starfish antes que este caia nas mãos dos novos governantes.

Já de cara, o roteiro do próprio James Gunn evita o erro mais grave cometido por Ayer em 2016 e abandona qualquer tentativa artificial de suavizar a vilania dos personagens, que não demonstram hesitação alguma em trucidar qualquer um que entre em seu caminho – ou mesmo que esteja dormindo nos arredores (como comprova o pavoroso e engraçado momento em que o Pacificador esfaqueia várias vezes, de forma casual, um soldado inconsciente). Além disso, cada vilão/anti-herói tem sua personalidade bem definida, resultando em interações bem-humoradas que surgem naturalmente de seus contrastes e idiossincrasias – e até mesmo Idris Elba, que raramente tem a oportunidade de flertar com a comédia, exibe um lado mais leve como Sanguinário sem trair o cinismo do sujeito. Enquanto isso, John Cena (cujas veias do braço parecem prestes a explodir) encarna o Pacificador como um brutamontes incapaz de perceber as próprias contradições e que, justamente por isso, estrela algumas das passagens mais divertidas do filme, ao passo que Daniela Melchior traz sentimento à narrativa através de seu apego à memória do pai (uma ponta de Taika Waititi). E se Viola Davis compõe Waller como uma figura que parece estar sempre irritada e sem paciência, Margot Robbie se mostra cada vez mais à vontade como a Arlequina, afastando-se de vez da abordagem desastrada do primeiro longa e investindo mais nas nuances encontradas em Aves de Rapina – e as flores e passarinhos animados que a envolvem em uma sequência de ação mais violenta ajudam a enriquecer a vilã ao expressar visualmente seu descolamento da realidade e do horror de seus atos.

A condução destas sequências, por sinal, representa um dos pontos fortes de Gunn, já que, mesmo formulaicas (quantas vezes já vimos heróis correndo enquanto tudo desaba ao seu redor?), são apresentadas com energia e clareza, jamais sacrificando a mise-en-scène com o tipo de montagem cada vez mais comum em Hollywood e que sempre confunde ritmo com a quantidade de cortes por minuto, tornando tudo incompreensível e aborrecido. Aqui, o espaço é delimitado com clareza, bem como o movimento dos personagens, o que é um alívio por si só – e até mesmo o clímax da narrativa se revela eficaz apesar de já termos visto kaijus destruindo cidades um milhão de vezes (é claro que o visual de Starro, a criatura em questão, ajuda ao fugir do design habitual de monstros do tipo, surpreendendo com suas cores fortes e alegres que não a tornam menos ameaçadora).

Para completar, é interessante notar como James Gunn não teme investir em subtextos políticos no meio da fantasia, usando a trama para criticar – mesmo que de forma óbvia e superficial – a política externa intervencionista dos Estados Unidos e a retórica barata da “busca pela paz” para justificar todo tipo de atrocidade ao redor do mundo (“Eu valorizo a paz com todo meu coração”, exclama o Pacificador em certo instante, completando a seguir: “E não importa quantos homens, mulheres e crianças eu terei que matar para consegui-la!”).

Tornando-se o primeiro diretor a comandar superproduções estreladas tanto por personagens da Marvel quanto da DC (a rigor, Joss Whedon deteria o título, mas não recebeu créditos por assumir Liga da Justiça depois da saída de Snyder), James Gunn parece ter encontrado seu nicho ideal (é dele também o bacana Super). E considerando como estes filmes têm se tornado cada vez mais genéricos – mesmo quando funcionam -, é um alívio ver um cineasta que ao menos consegue manter a própria voz apesar das imposições de executivos que chamam “arte” de “conteúdo” e enxergam seus projetos mais como “propriedade intelectual” do que como um esforço de criatividade.

Observação: há cenas adicionais durante e após os créditos finais.

10 de Agosto de 2021

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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